Tendo a humanidade percorrido uma longa jornada para chegar aos tempos que correm, e considerando o grande progresso intelectual e tecnológico atingido, é de se perguntar por que razão vivencia-se um quadro estacionário no que diz respeito ao aspecto moral.
Trata-se de uma apatia íntima que corrói as possibilidades de crescimento pessoal e coletivo, na medida em que faz emergir pensamentos e condutas centrados apenas no bem-estar individual, conquistado a qualquer preço, mesmo que em detrimento da saúde e da sobrevivência de outras pessoas.
Dentre os inúmeros cânceres destruidores das famílias humanas, sem dúvida paira
dominador o vício da falta de humildade, originado da ausência de amor e da incapacidade de percepção de que tudo que existe está conforme à lei de causa e efeito. Como corolário dessa doença moral assiste-se ao completo desrespeito às diferenças, numa clara arbitrariedade fomentadora do discurso único.
Assim, procura-se dirigir a vida dos homens de acordo com um sem número de conceitos pré-estabelecidos, os quais favorecem tão-só um reduzido grupo de pessoas, tolhendo o potencial criativo e eliminando a chance de ser feliz, pelo desprezo à liberdade de escolha realmente desimpedida.
Não satisfeitos com o engessamento de um sistema que anula as singularidades, os integrantes dessa casta invisível, conquanto concreta, em nome de sua manutenção e mesmo para servir à sua vaidade infinita, deságuam num mar de crueldade e dureza ao amarrarem firmemente os nós da repetição cotidiana aos grilhões da necessidade de continuar respirando e de levar o sustento aos entes queridos.
Com esse propósito, o desfile da arrogância e o ditame de padrões comportamentais entabulados à revelia das vítimas sociais acontece a todo momento, desnudando a dignidade humana e promovendo o enterro das potencialidades latentes.
Não é por outro motivo que todos os dias as mídias informam sobre o achaque circense promovido pelos detentores do poder, numa manifestação bizarra de indiferença, displicência sadismo.
Esquecem-se esses homens e mulheres de que a autoridade a eles concedida é provisória e foi outorgada para a realização do bem em seu significado mais amplo. Portanto, o mau uso ou abuso desse dever-poder está associado a uma grande responsabilidade, por intermédio da inevitável recomposição dos danos e do
retorno das relações ao estado em que sempre deveriam permanecer.
No entanto, cabe aos resistentes a difícil tarefa de edificar um tecido social em que prevaleçam os valores humanos e no qual as diferenças convivam harmonicamente. Tendo esse fim em mira, urge considerar o imperativo convite aos algozes da sociedade para que calcem as sandálias do pescador, submetendo-se à autocrítica honesta e redirecionando seu comportamento rumo à delicadeza, ao respeito e à humildade.
Toda essa problemática não deve paralisar aqueles que desejam um mundo melhor, pois saber que há todo um conjunto de dificuldades necessitantes de superação constitui-se em enorme desafio, verdadeiro projeto de vida condizente com aspirações nobres. Precisamente com tal fito escreveu Herbert Vianna: “... Até sermos engolidos/ pela vida sem brilho/ por nossos inimigos/ na rotina comum/ E sou só um/ mas não sou um deles/ Eu sou só um/ E mesmo que pareça tolo/ e sem sentido/ eu ainda brigo por sonhos/ eu ainda brigo”.